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segunda-feira, janeiro 26, 2004

Eça agora 

Este é um dia em que o País parece ter parado. O Presidente da República, o Governo, todas as instâncias oficiais e não oficiais ligadas ao futebol, as televisões, os jornais, as rádios, os cidadãos anónimos, notáveis, notados... Faleceu um jovem. Talento promissor do futebol. Tal como, certamente, muitas outras pessoas, faleceu, ontem. Que tem isto de especial? Não fará a morte parte da vida?

A diferença estará, eventualmente, na brutalidade do directo, no facto de ser uma pessoa conhecida, ao serviço de um clube de futebol conhecido, e, sobretudo, naquele sorriso que ficou gravado, indelével, nas retinas de todos. E, talvez, no clubismo bacoco que alguns se apressaram a exultar, outros na tentativa de aproveitamento político cretino, provinciano, mesquinho, desajustado, óbvio. Isto para já não mencionar o gigantesco e despropositado espectáculo coreografado por todas as comunicações sociais.

Sem diminuir um pouco que seja o que parece ser a justa e compreensível comoção colectiva - aliás, bastante vincada e até ampliada pela comunicação social - não deixa de ser curioso este sentimento de que parece ter-se perdido um dos filhos pródigos da Nação.

É o País que temos. É o povo que somos.

Porque nem tudo são tristezas, lembrei-me de transcrever esta belíssima passagem de uma das muitas obras literárias de - esse, sim - um grande filho da Nação:

"Uma noite, atravessámos uma cidade, onde os candeeiros da rua tinham uma luz jovial, rara e brilhante como eu nunca vira, da forma de uma túlipa aberta. Na estalagem em que apeámos, o criado, chamado Gonçalves, conhecia o Sr. Matias: e depois de nos trazer os bifes, ficou familiarmente encostado à mesa, de guardanapo ao ombro, contando coisas do senhor barão e da inglesa do senhor barão. Quando recolhíamos ao quarto, alumiados pelo Gonçalves, passou por nós, bruscamente, no corredor, uma senhora, grande e branca, com um rumor forte de sedas claras, espalhando um aroma de almíscar. Era a inglesa do senhor barão. No meu leito de ferro, desperto pelo barulho das seges, eu pensava nela, rezando ave-marias. Nunca roçara corpo tão belo, de um perfume tão penetrante; ela era cheia de graça, o Senhor estava com ela, e passava, bendita entre as mulheres, com um rumor de sedas claras..."

in «A Relíquia», Eça de Queiroz

sábado, janeiro 24, 2004

Curiosidades I 

Uma figura vale mil palavras...





Marketing 

De facto, por vezes há quem encontre formas realmente originais de publicitar produtos e serviços. Este magnífico exemplo sublinha os factores diferenciadores da oferta na mais antiga profissão liberal de prestação de serviços do mundo.




terça-feira, dezembro 16, 2003

Ainda por cá 

Não, não me fui embora. Só afazeres múltiplos ocupando infinitamente o tempo, e retirando o ensejo de escrever umas linhas que façam sentido.
À parte os eventos políticos e sociais dados à estampa, de que toda a gente fala (a maior parte das vezes sem grande propriedade, diga-se), o grande vazio é paulatinamente preenchido pelos interesses e actividades inerentes à época natalícia que vivemos.
Pode ser que no Natal, dada a tradição, se mude alguma coisa. Que as renas fiquem atoladas no gelo, por exemplo...

terça-feira, dezembro 02, 2003

O desígnio 

1 de Dezembro.
Feriado Nacional.
Dia comemorativo da Restauração da Independência.
Orgulho Nacional.
Abaixo os Miguéis.
Viva a independência!

É curioso saber que já desde o longínquo período dos Césares e das ocupações romanas, segundo constava das missivas do Governador Romano da Ibéria, o povo "estranho" que habita este pequeno rectângulo luso "nem se governa, nem se deixa governar".
Está visto que a tradição se mantém... O contexto mudou, o Mundo é outro, os outrora malfadados vizinhos são os parceiros primordiais.
Nós talvez não tenhamos mudado assim tanto.

quinta-feira, novembro 27, 2003

Os blogues dos outros 

Às vezes perco-me em viagens infindas pela chamada blogosfera. Ideias soltas aqui, frases deslocadas ali, boas prosas com substância acolá. Português imaculado na forma, é um achado.
Os que, de alguma forma, têm o sucesso medido pelo número assíduo de leitores, são não raras vezes acossados pelo terrível sentimento primário de inveja de alguns (prováveis autores, eles mesmos, de escritos desinteressantes e deselegantes). Mais não fazem que exacerbar um velho e enraizado sentimento tristemente bem português. O caso mais paradigmático é, talvez, o do blogue do Pipi, em que a forma visível do que digo chega ao extremo de dificultar, e até mesmo bloquear, o sistema de comentários aos textos, com janelas contendo textos abjectos na forma e conteúdo.
É triste que assim seja. É a nossa sina como povo. Sempre medíocres e sem a mínima abertura para conceber que há, de entre nós todos, gente que, por dote, engenho ou arte, pode ser melhor - e com isso ganharmos todos. Em vez de se apoiar e incentivar estas excepções, logo se levanta a omnipresente onda verde da inveja.
O nosso grande lema, como povo, deveria ser: é preciso eternizar a mediocridade...

sábado, novembro 22, 2003

As bocas já funcionam 

Mudei de servidor de comentários. Afinal o outro, na enetation.co.uk, nunca chegou a funcionar comigo. Este, para já, não está mal.
Divirtam-se e divirtam-me.

Fumar mata 

Não sei se esta campanha anti-tabágica, em que são mostradas frases mortuárias e outras ameaças graves nos maços de tabaco, tem tido a eficácia que se pretendia. Passado o choque inicial que eventualmente terá provocado aos fumadores inveterados, a campanha perde com a habituação. Tal como o vício que se pretende contrariar, as frases acabam por ser apenas uma mancha inestética no maço, perdendo o seu significado. Além disso, para os mais sensíveis à poluição visual, há sempre quem venda uns preservativos para maços de tabaco.
A este propósito, e como sugestão a quem de direito, para contrariar, pelo menos, o efeito da habituação, lembrei-me que poderiam ser substituidas as frases foleiras, a que já ninguém liga, por uma fotografia da Ministra Ferreira Leite... É impossível alguém habituar-se àquela cara, não?!

quinta-feira, novembro 20, 2003

Ilusão colectiva 

Esta coisa da depressão económica, num País como o nosso, tem que se lhe diga. É que, de tão insignificante em termos de economia europeia (para já não mencionar outros contextos), o mais natural seria seguir os padrões medianos, medíocres mesmo, que nos têm caracterizado no período histórico mais recente. Isto é, nem nunca estivemos muito bem durante os ciclos de forte expansão económica, nem nunca muito mal durante os chamados "abrandamentos", quando comparados, em termos equivalentes, com outros países do mesmo espaço económico. Este período que temos vindo a viver é, talvez, uma excepção, pela negativa. Porque será isso? Não me parece que esteja só nesta constatação de estado catatónico colectivo.
É demasiado fútil assacar responsabilidades directas às atitudes, que reputamos todos de "bem portuguesas", aliás, de nacional-porreirismo, facilitismo, incúria, desleixo, compadrio, tráfico de influências, clientelismo, vigarice, até - normalmente a pequena vigarice, o golpe do "Chico Esperto", que, mesmo aí, é raro vislumbrar-se competência para as acções realmente grandes, de monta. Nas outras sociedades e economias com que nos relacionamos - posso afirmá-lo com alguma propriedade - este tipo de comportamento social também existe em maior ou menor grau. Onde estarão, então, as diferenças?
O recurso ao argumento já cansado, evidentemente populista - segundo o qual todas as economias estão inter-relacionadas, daí decorrendo que, se os outros países estão em maus lençóis, nós, forçosamente, teremos que estar - esse argumento, dizia, também não parece assentar em bases suficientemente sólidas. Portanto, refutável. Mas é este um dos trunfos do discurso político da derrota a que assistimos todos os dias impávidos e serenos (mas angustiados). Que dizer de algumas empresas, organizações, países, até, que não só resistem à depressão, como, espante-se, conseguem crescer, apesar de tão adverso ambiente económico e social. Declino mencionar exemplos, que os há, muitos e variados, mas vale a pena a constatação.
E os políticos? Os governantes? Que fazem eles? Não são eles representantes do povo, eleitos pelo povo, ao serviço do povo? Ouvimos falar todos os dias - nos intervalos da telenovela judicial a respeito do Processo da Casa Pia, ou crimes do mesmo tipo, agora sob o foco intenso da notícia - os governantes falar do controle das contas públicas, da redução das despesas, das metas do défice económico. Ao mesmo tempo que os políticos da oposição se esforçam por demonstrar (muito raramente, diga-se) que não é assim, que o País está de tanga por via dessas mesmas medidas e opções estratégicas. Polémicas à parte a este respeito (a merecer, talvez, uma nota outra vez que me lembre disso), acaso alguém se lembra de ouvir os nossos políticos e governantes falar de medidas, atitudes, opções estratégicas realmente estruturantes, que possam conduzir à recuperação económica? Que cativem as vontades das pessoas? Que lhes façam ver que o interesse colectivo vale a pena? Que o interesse individual beneficiaria se o do colectivo vingasse? Nem que seja no plano psicológico? Alguém ouve falar o Ministro da Economia? (Alguém sabe quem é ele?) Alguém entende os que eles dizem? Já repararam que a maior parte dos comunicados públicos, discursos, notas, entrevistas, não são mais que recados que os agentes políticos enviam uns aos outros, num contar de espingardas eterno, inútil para a Causa Nacional? Teremos que assistir impávidos e serenos (mas angustiados) a este triste espectáculo de falta de ideias, incompetência, até?
Seremos nós, portugueses, impotentes para pelo menos fazer ver aos políticos que já ninguém os ouve? Ou estará o sistema podre?
Meditemos sobre esta grande ilusão colectiva...

O espaço de comentários 

Afinal, a merda de sítio que escolhi para alojar o espaço de comentários está completamente baralhado. Ora, foda-se para isto!
Pode ser que alguém desfaça a confusão que por ali vai. Aguardemos uma melhor oportunidade.
Portem-se mal.